Arquivo da tag: Territórios Indígenas

A Coletora Autônoma

Nos anos 1930, a austríaca Wanda Hanke viajou sozinha pela América do Sul para estudar populações indígenas.
Mariana Moraes de Oliveira Sombrio,
pesquisadora do Programa de Pós-graduação Interunidades em Museologia da USP, fala sobre a importância e história da etnógrafa que, sem apoio institucional, passou os últimos 25 anos de sua vida em florestas no interior da Argentina, Bolívia, Brasil e Paraguai.


Veja mais  da FAPESP no link abaixo


 


Djuena Tikuna

Jornalistas Livres
Published on Oct 22, 2017



A noite do dia 23 de agosto de 2017 ficou marcada por um encantamento e diversidade jamais vistos no centenário Teatro Amazonas, em Manaus. Subiram ao palco, com suas vestimentas e instrumentos tradicionais, grupos de dança das etnias Sateré-Mawé, Tukano, Dessana e Tikuna para um pré-show do espetáculo inédito do lançamento do CD “Tchautchiüãne” (significa em português “minha aldeia”) da cantora e compositora indígena Djuena Tikuna, que canta na língua do seu povo, Tikuna – autodenominado Magüta. Um público de 823 pessoas, incluindo 300 indígenas convidados de diversas etnias, lotou o teatro, fundado 1896. No palco, a artista Djuena foi acompanhada pelo marido, Diego Janatã (na percussão e flautas), e pelos músicos Poramecú Tikuna (maracá e voz), Anderson Tikuna (violão), Antón Carballo (violino) e Agenor Vasconcelos (contrabaixo). Dividiram o espetáculo com ela a cantora Yra Tikuna, na canção “Ewaré”, e Marlui Miranda, na música “Maraká´Anandé”, canção tradicional do povo Ka´apor (do Maranhão). Marlui, que é etnomusicóloca, cantora e uma referência e pioneira em música indígena no Brasil, cantou ainda com Djuena a música “Araruna”, uma canção que fez parte do seu disco “Vozes da Floresta”, de 1996, inspirada na música tradicional dos índios Parakanã (Pará). O CD “Tchautchiüãne” de Djuena Tikuna tem 12 faixas, incluindo o Hino Nacional. Foi com a interpretação do hino brasileiro na língua Tikuna que a artista abriu sua apresentação no Teatro Amazonas acompanhada de crianças da comunidade Wotchimãücü e do imitador de pássaros Cleudilon de Souza Silveira, conhecido como Passarinho. Ele, que acompanhou a cantora em outras canções ao longo do show, assovia os cantos de 37 diferentes espécies da fauna amazônica, entre elas o bacurau, o sabiá-laranjeira e o tucano. As composições no CD “Tchautchiüãne” falam da resistência cultural, da identidade indígena, dos rituais e das ameaças aos direitos indígenas. O espetáculo foi dirigido por Djuena em parceria com o diretor de teatro Nonato Tavares, da Companhia Vitória Régia. Djuena Tikuna (“a onça que pula no rio”) nasceu na Terra Indígena Tikuna Umariaçu, município de Tabatinga, no Amazonas, região do Alto Rio Solimões, na fronteira entre o Brasil, Colômbia e Peru. O gosto pela música ela herdou da avó, Awai Nhurerna (em português Marilza), já falecida, a quem a cantora fez uma homenagem durante o espetáculo no Teatro Amazonas. — Direção: Christian Braga Fotografia: Robert Coelho Câmeras: Christian Braga e Robert Coelho Produção: Renata Frota Assistente de Produção: Nadyne Oliveira Apoio: Jornalistas Livres, Greenpeace e Amazônia Real

O Hupdâ “Trotskista”

Márcio Santilli, frente a Funai na década de 1990,  relata  memórias  de seu chefe de gabinete, o antropólogo Jorge Pozzobon


O “trotskista”



Márcio Santilli*

Fronteiriço de Santana do Livramento (RS), Pozzobon nasceu em 1955. Formou-se em filosofia, enveredou pela antropologia no final dos anos 70, cruzou o paÌs e foi pesquisar o contato entre Ìndios e brancos no alto Rio Negro, extremo noroeste da AmazÙnia brasileira, num cen·rio de fronteira geopolÌtica trinacional (Brasil/ColÙmbia/Venezuela), onde vivem 23 etnias nativas.<br /> Nesta babel, Jorge fez a escolha radical de trabalhar com os Maku, um povo seminÙmade de agricultores-caÁadores-coletores, de lÌngua ·grafa, que vive nos matos dos interfl˙vios, discriminados e subordinados pelos ìÌndios dos riosî. Foram 20 anos, muitas andanÁas, conversas, registros escritos e o aprendizado da lÌngua Hupd‚, uma das variantes Maku, que lhe valeram ser tratado por eles como Yossi (corruptela de Jorge) Deh-Naw (do ìcl„î da ·gua boa, vers„o do significado do seu sobrenome).<br /> Em 1982 conheceu Nyaam Hi, figura dersuzal·tica, que se tornaria seu grande amigo. Com ele aprendeu o estado de espÌrito adequado para andar no mato. Em 1997, em sua companhia, atravessou o divisor de ·guas entre os rios TiquiÈ e Papuri, para visitar aldeias Hupda, andarilhando o chavascal e levando ‡s costas mapas com os limites da demarcaÁ„o das terras indÌgenas, finalmente reconhecidas pelo governo federal brasileiro.<br /> 1955-2001<br /> Fonte ISA<br /> Foto Paulo Santos
Jorge Pozzobon

       Fui nomeado presidente da Funai pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em setembro de 1995, após alguma embromação. Tive o privilégio de poder indicar nomes da minha confiança para as suas diretorias e demais cargos de confiança. Pedi ao governo a indicação de um gestor público para a diretoria de administração, calçando-me das adversidades burocráticas e facilitando a interlocução com os órgãos de controle do estado. No mais, aproveitei os melhores quadros que já estavam no órgão.
Para chefiar o gabinete da presidência, desloquei o antropólogo Jorge Pozzobom, pessoa querida e que atuava na diretoria de assuntos fundiários. Pedi socorro, provisoriamente, para que ele me ajudasse a segurar o agito do gabinete no primeiro tempo da gestão, já que a sua alta qualificação intelectual e interesse profissional não tinham nada a ver com aquela função.

Na estrutura da Funai inexiste o cargo de vice-presidente. A cada gestão ocorre a designação, pela presidência da República, de um substituto funcional para eventuais ausências do presidente do órgão que, geralmente, recai sobre um dos diretores. No meu caso, pedi ao ministro da Justiça, Nelson Jobim, a designação do chefe de gabinete.

Transcorreram algumas semanas sem que a designação oficial do Jorge se efetivasse, o que gerava transtornos burocráticos a cada viagem minha. Perguntei ao ministro o porque da demora e fui informado que a consultoria jurídica do ministério havia questionado a legalidade da indicação. Em burocratês: o presidente da Funai ocupa um DAS-6 (nível hierárquico do cargo na estrutura administrativa do governo federal) e, segundo a consultoria, o seu substituto deveria ser um DAS-5 (que é o nível hierárquico atribuído aos diretores), enquanto o cargo do Jorge (chefe de gabinete) era de nível DAS-4.

Respondendo ao questionamento, a procuradoria jurídica da Funai elaborou um parecer dizendo que não havia impedimento legal para se designar qualquer ocupante de função de confiança como substituto, pois, ao assumir a presidência interinamente, passa a exercer função de nível DAS-6 automaticamente, com nível hierárquico superior aos demais dirigentes do órgão, sendo, inclusive, remunerado como tal. E apontou precedentes de designações similares havidas em outros órgãos. Jobim aprovou o parecer da Funai, mas, mesmo assim, a designação do Jorge não saía no Diário Oficial da União (DOU).
Alguns dias depois, em audiência com o ministro, perguntei de novo sobre a designação do Jorge. Ele disse, então, que teria surgido uma objeção política da Casa Civil, pois ele seria filiado ao PT: “Você indicou um cara de uma ala trotskista do PT e, ainda por cima, do meu estado! Estou sendo cobrado por isso pelos parlamentares gaúchos da base”.

Jorge Pozzobon ©Paulo Santos
Jorge Pozzobon é benzido por pajé Maku, em São Gabriel da Cachoeira (AM), em 1997

Apesar de conhecê-lo há anos, eu não tinha a menor ideia sobre preferências ou vinculações partidárias do Jorge. Depois, fiquei sabendo que ele era compadre do Miguel Rossetto, deputado federal pelo PT do Rio Grande do Sul e integrante da “Democracia Socialista”, uma facção interna do partido tida como sendo de inspiração trotskista. Rossetto foi depois ministro do Desenvolvimento Agrário e secretário geral da presidência. Respondi ao Jobim que eu nada sabia sobre a opção partidária do Jorge e compreendia o constrangimento político. Mas que tudo o que a Casa Civil estava dizendo dele só reforçava a minha opção por sua designação. Ele reagiu: “Como assim, Márcio?” Expliquei, então, que a tradição na Funai é o substituto conspirar para derrubar o presidente e, sendo ele adversário político do próprio ministro, não teria a menor condição de pretender o cargo. Após segundos de silêncio, ele aquiesceu: “Sabe que você tem razão?! Não tinha pensado nisso…” Alguns dias depois, a designação do Jorge saiu publicada no DOU.

Com três meses de exercício, a direção da Funai apresentou às instâncias superiores de governo uma dupla proposta para a reestruturação do órgão: reforma modesta numa primeira etapa, nos limites da legislação vigente, e mais profunda, visando o resgate da sua institucionalidade de fundação, após a suposta aprovação da reforma do Estado pelo Congresso Nacional. Reestruturar a Funai havia sido o objetivo da minha nomeação. Porém, o ministro da reforma do Estado, Bresser Pereira, achava que não convinha efetivar nem mesmo a primeira etapa da reestruturação, pois suscitaria reações corporativas que poderiam gerar reações corporativas capazes de dificultar a aprovação da emenda constitucional da reforma do Estado no Congresso.

Pedi uma conversa presencial com o presidente Fernando Henrique e expliquei que eu não tinha interesse em permanecer na presidência da Funai. Relatei a objeção do Bresser e ele informou que forçaria a barra por uma votação em breve da reforma do Estado pelo Congresso. Respondi que o órgão e o seu governo já dispunha de uma (na verdade, duas) proposta específica para a reestruturação da Funai e que poderia executá-la no momento que mais lhe conviesse, não fazendo muito sentido que eu permanecesse no cargo para esperar por ele. A discussão dentro do órgão sobre essa proposta já estava produzindo reações corporativas que se esvaziariam com a nomeação de outra pessoa. O Lucas (meu filho mais novo) tinha nascido e, além disso, eu preferia trabalhar no terceiro setor. Mas ele me pediu que eu esperasse a decisão do Congresso sobre a reforma administrativa e eu esperei.

Porém, nas semanas seguintes, o Congresso foi desidratando completamente a proposta de reforma administrativa. Não vale a pena, aqui, entrar em detalhes sobre o seu mérito, mas o fato é que o Estado estava preferindo continuar podre e inerte. A ciência política ensina que as burocracias não se reformam, só se reproduzem, a menos que sejam impactadas por movimentos populares ou por fortes direções políticas. A aprovação (na verdade, rejeição) da pífia reforma administrativa pelo Congresso, foi a senha para eu apresentar o pedido de demissão.

No dia seguinte, reuni a diretoria da Funai, com o Jorge presente, e informei que iria ao ministério da Justiça para entregar a minha carta de demissão. Pedi aos diretores que permanecessem no exercício das suas funções até que fosse nomeado o meu sucessor. Precisei de algum tempo para finalizar a carta e, quando cheguei à garagem para pegar o carro oficial rumo ao ministério, lá estava o Jorge, com um envelope na mão: “Entrega a minha junto!”. E eu entreguei. O mais interessante foi que, no dia seguinte, o Jorge – “trotskista” e tudo – foi convidado pelo chefe de gabinete do Ministério da Justiça, José Gregori, para assumir a presidência da Funai. E não topou.

Eu nunca soube se o Jorge foi, ou não, trotskista. Olhando para a cara dele, parece que sim. Mas eu acho que não, mesmo que em algum momento ele tenha se encantado com a ideia de uma revolução permanente.

Acho que ele acreditou mais nos Hupda (leiam “Vocês Brancos não têm Alma”) e no Freud do que no Trotsky.

Com inteligência criativa e fino bom humor, costumava me ligar na madruga: “Presidente, que horas o Senhor deve chegar ao hospício?” Quando caiu gravemente doente, ele me disse que atribuía o câncer às tensões vividas na Funai. Assim sendo, temo pela extensão da minha contribuição para a sua agonia.

Beijão Camarada!!!


Conheça o personagem >>

Fronteiriço de Santana do Livramento (RS), Pozzobon nasceu em 1955. Formou-se em filosofia, enveredou pela antropologia no final dos anos 70, cruzou o país e foi pesquisar o contato entre índios e brancos no alto Rio Negro, extremo noroeste da Amazônia brasileira, num cenário de fronteira geopolítica trinacional (Brasil/Colômbia/Venezuela), onde vivem 23 etnias nativas. Nesta babel, Jorge fez a escolha radical de trabalhar com os Maku, um povo seminômade de agricultores-caçadores-coletores, de língua ágrafa, que vive nos matos dos interflúvios, discriminados e subordinados pelos “índios dos rios”. Foram 20 anos, muitas andanças, conversas, registros escritos e o            aprendizado da língua Hupdâ, uma das variantes Maku, que lhe valeram ser tratado por eles como Yossi (corruptela de Jorge) Deh-Naw (do “clã” da água boa, versão do significado do seu sobrenome). Em 1982 conheceu Nyaam Hi, figura dersuzalática, que se tornaria seu grande amigo. Com ele aprendeu o estado de espírito adequado para andar no mato. Em 1997, em sua companhia, atravessou o divisor de águas entre os rios Tiquié e Papuri, para visitar aldeias Hupda, andarilhando o chavascal e levando às costas mapas com os limites da demarcação das terras indígenas, finalmente reconhecidas pelo governo federal brasileiro.

* Márcio Santilli é sócio fundador do ISA, e por um curto período esteve à frente da Funai .

Imagens©Paulo Santos

Fonte ISA

 

Yawanawá

Imagens da abertura do V Festival Mariri da etnia yawanawá, na aldeia Mutum, Rio Gregório, . Denominada de saiti munuti, é uma ação de agradecimento aos espíritos da floresta pelos bens que ela oferece e momentos de alegria que a comunidade vivencia, além de um sinal de boa vinda aos visitantes. Os cantos e danças yawanawá são expressões culturais cultivados pela etnia desde tempos imemoriais. Os yawanawá dizem que os cantos das rodadas de mariri servem para chamar a força dos ancestrais, conectá-los com a natureza e elevar seus espíritos ao Criador. Imagens Altino Machado Images of the opening of the V Mariri Festival of the Yawanawá ethnic group, in the village Mutum, Rio Gregório,. Named saiti munuti, it is an act of thanks to the spirits of the forest for the goods it offers and moments of joy that the community experiences, as well as a welcome signal to visitors. Yawanawá songs and dances are cultural expressions cultivated by the ethnic group since time immemorial. The yawanawá say that the corners of the mariri rounds serve to draw strength from the ancestors, connect them with nature and elevate their spirits to the Creator. Images Altino Machado (Altino Machado / Acervo H)
Imagens da abertura do V Festival Mariri da etnia yawanawá, na aldeia Mutum, Rio Gregório, . Denominada de saiti munuti, é uma ação de agradecimento aos espíritos da floresta pelos bens que ela oferece e momentos de alegria que a comunidade vivencia, além de um sinal de boa vinda aos visitantes. Os cantos e danças yawanawá são expressões culturais cultivados pela etnia desde tempos imemoriais. Os yawanawá dizem que os cantos das rodadas de mariri servem para chamar a força dos ancestrais, conectá-los com a natureza e elevar seus espíritos ao Criador. Imagens Altino Machado Images of the opening of the V Mariri Festival of the Yawanawá ethnic group, in the village Mutum, Rio Gregório,. Named saiti munuti, it is an act of thanks to the spirits of the forest for the goods it offers and moments of joy that the community experiences, as well as a welcome signal to visitors. Yawanawá songs and dances are cultural expressions cultivated by the ethnic group since time immemorial. The yawanawá say that the corners of the mariri rounds serve to draw strength from the ancestors, connect them with nature and elevate their spirits to the Creator. Images Altino Machado (Altino Machado / Acervo H)

O Fotógrafo Militante

Lucivaldo Sena



Militante dos movimentos sociais, o fotógrafo Lucivaldo Sena construiu seu início profissional participando e documentando as manifestações populares. A fotografia como ferramenta de denúncia era seu instrumento, no corpo a corpo social.  Ele amadurece na infantaria dessas batalhas e, com linguagem própria, técnica precisa e talento consumado, se profissionaliza, publicando trabalhos nos principais jornais e revistas do Brasil, como O Estado de São Paulo, revista Exame, portal Uol, além das agências noticiosas nacionais e internacionais. como AP, Reuters e AFP. Nesta corrida edição do Lucivaldo, uma inesquecível imagem noturna: o cocar com fogos ao fundo. Símbolos que se confundem, que se completam, que se agridem e acariciam. A descoberta, pelos olhos sensíveis, de um veio de possibilidades que dá à fotografia a riqueza que produz encantamento e verdade.


Texto Paulo Santos